A celebração da Páscoa marca, e muito, as tradições de países cristãos, nomeadamente católicos. É o que acontece em Portugal, um país de tradição e raízes ligadas ao catolicismo. Em Portugal, a juntar à dimensão religiosa, assiste-se também a uma importância civil. A altura da Páscoa é sinónimo de férias escolares e muitas vezes laborais (potenciadas pelos feriados associados), pelo que também é uma quadra de viagens e descoberta de diferentes celebrações. E algumas destas celebrações são amplamente populares, quer seja pela sua dimensão, ou pela diferenciação relativamente aos rituais religiosos mais habituais da Páscoa, embora o simbolismo e os significados sejam mais ou menos comuns e alinhados com o espírito pascal. 

Queima do Judas – Montalegre

 

A vila de Montalegre, no distrito de Vila Real, é famosa pelas celebrações e eventos de diversas datas icónicas, religiosas ou pagãs, que atraem milhares de visitantes (como a sexta-feira 13). Na quadra pascal, a celebração mais marcante é a Queima do Judas, que acontece no sábado anterior ao dia de Páscoa. É uma celebração marcada pelo espetáculo de luz que proporciona. Bonecos de palha, que simbolizam Judas, seguem em cortejo até ao Terreiro do Açougue, perto do castelo, onde são queimados. Este gesto simboliza o castigo de Judas pela traição a Jesus e, em lato senso, a luta do Bem contra o Mal. Mais recentemente, esta celebração tem ganho contornos de crítica social, com alguns dos Judas de palha a serem associados a problemas percecionados na sociedade portuguesa. 

Festa das Tochas Floridas – São Brás de Alportel

 

Esta vila do distrito de Faro organiza uma das celebrações mais coloridas e mais fragrantes da Páscoa. A procissão de Aleluia, no domingo que marca a ressurreição de Cristo, substitui os andores por tochas feitas de flores campestres, carregadas apenas por homens. A rua que acolhe o passar da procissão, completa o cenário de cor com um tapete de flores que se estende por mais de um quilómetro, e as janelas e varandas das casas decoradas a rigor. A preparação desta festa obriga a um árduo trabalho de apanha das flores, construção das tochas e tapetes de flores, noites e madrugadas fora durante os dias anteriores.

Sábado de Aleluia – Idanha-a-Nova

 

Nem só de cores, sabores e aromas se fazem as celebrações da Páscoa. Nesta vila do distrito de Castelo Branco, a ressurreição de Jesus é celebrada com muito barulho, para além da alegria. Na noite de sábado, população e visitantes juntam-se na Igreja, onde o padre dá início à procissão, pronunciando “Aleluia”. Segue-se a passagem da procissão pela vila, ao som de apitos e chocalhos (ou outro instrumento igualmente barulhento), enquanto o padre celebra a missa na Igreja. Faz parte da tradição que as mulheres possam tocar adufes, simbolizando a alegria da Mãe do Ressuscitado e a devoção a Maria. Os participantes da procissão voltam depois ao ponto de partida, onde recebem amêndoas atiradas pelo pároco local.

Endoenças – Torrão e Entre-os-Rios

 

Este é mais um exemplo de uma celebração que tem na luz um dos seus principais atrativos. Mais de 50 mil velas, denominadas tigelinhas, iluminam as pontes e margens do rio, casas e ruas, num espetáculo que conta com a colaboração das empresas energéticas, que cortam o fornecimento de luz por alguns momentos, para que o impacto luminoso seja ainda maior. O percurso iluminado corresponde ao trajeto que a imagem do Senhor dos Passos faz em procissão, de regresso a Entre-os-Rios, na noite de quinta-feira, depois de “roubado” pelos populares de Torrão na noite anterior, como dita a tradição. 

Lanço da Cruz – Caminha

 

Nesta zona de fronteira com Espanha, o culminar das celebrações pascais simboliza verdadeiramente o espírito de tolerância, união e amor ao próximo. Na segunda-feira, o padre faz-se transportar de barco até Espanha, onde dá a beijar o compasso à população galega local. No regresso, a embarcação transporta também o pároco espanhol, que dá a beijar o compasso à população local portuguesa. A viagem dos párocos é acompanhada por barcos de pesca, que lançam as suas redes, para que sejam abençoadas e o fruto da pesca seja oferecido ao sacerdote. As travessias são alegradas pelas fanfarras locais e celebradas com fogo-de-artifício.

Para além das habituais e mais comuns tradições de jejum, eucaristias, visitas dos párocos, amêndoas, ovos e folares, a história de Portugal tem mantido celebrações que são verdadeiros atrativos para centenas, senão milhares de visitantes, em vários pontos de norte a sul do país. Apesar das suas singularidades, têm em comum a vontade de celebrar a ressurreição de Jesus Cristo. São também as suas singularidades que contribuem para reforçar a já de si vasta riqueza cultural do país, que pode ser conhecida ao aproveitar o período de alguma pausa, laboral e escolar, que a quadra proporciona.